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A TERCEIRA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL
Hoje, um fantasma ronda a vida dos
trabalhadores: o desemprego. Para muitos estudiosos, trata-se de
um desemprego estrutural, isto é, causado pelas transformações
que vêm ocorrendo no padrão ou modelo de desenvolvimento
produtivo e tecnológico que predomina nos países capitalistas
avançados. Essas transformações apresentam diferenças nos países
onde ocorrem mas, de qualquer forma, estão alterando a organização
do processo produtivo e do trabalho em todos eles e no resto do
mundo também. E tais mudanças afetam o conjunto do mundo do
trabalho.
À primeira vista, os robôs ou as novas tecnologias de produção
parecem ser os únicos e mais cruéis causadores desse desemprego.
No entanto, existem outras razões de ordem econômica, social,
institucional e geopolítica que, associadas à tecnologia,
formam um conjunto que explica melhor aquilo que, para alguns
analistas, significaria até mesmo o fim de uma sociedade
organizada com base no trabalho.
O sistema capitalista, como todo sistema econômico, sofreu
transformações ao longo de sua história. As mudanças podem
ser profundas, acumular tensões sociais e graves problemas econômicos,
gerar crises, guerras e revoluções políticas, mas o sistema
permanece basicamente o mesmo, isto é, trata-se de um sistema
produtor de mercadorias cuja venda tem por objetivo o lucro. Por
isso o chamamos, indistintamente, de economia de mercado ou
economia capitalista.
No entanto, para que as empresas capitalistas produzam mais e
mais mercadorias - com maior eficiência e melhores níveis de
produtividade, ganhando em competitividade em relação a outras
empresas, e sempre que possível obtendo lucros crescentes - elas
precisam criar e aplicar novas técnicas e novas formas de
organização da produção e do trabalho, dividir funções com
outras empresas, negociar salários, estipular taxas de lucros
etc.
Mas o capitalismo não se restringe apenas às unidades
empresariais e suas dinâmicas internas. Na sociedade como um
todo, existem outros componentes extremamente importantes que
precisam ser levados em consideração, pois interferem na vida
das próprias empresas. Tais componentes podem ser as formas
institucionalizadas, como as regras do mercado, a legislação
social, a moeda, as redes financeiras, em grande parte
estabelecidas pelo Estado, ou ainda, as disputas pelo poder das
nações, o comércio internacional, a renda e o consumo de cada
família, a qualidade dos recursos humanos, as convenções
coletivas, as idéias produzidas etc.
Quando esse conjunto de elementos, e muitos outros, é
razoavelmente ajustado e aceito pela sociedade (não se trata de
um consenso pleno, pois sempre haverá oposições e tensões),
estamos diante de um modelo de desenvolvimento capitalista
dominante, com uma organização territorial correspondente. E
esse modelo permanece até que uma nova crise ocorra e novos
rearranjos sejam feitos na sociedade e no espaço.
Após a crise de 1929, o modelo de desenvolvimento que aos poucos
passou a dominar nos países de tecnologia avançada - Estados
Unidos, Japão e em boa parte da Europa -, mantidas suas
especificidades, levou o nome de fordismo, pois nesse modelo
foram incluídas formas de produção e de trabalho postas em prática
pioneiramente nos Estados Unidos, nas décadas de 1910 e 1920,
nas fábricas de automóveis do empresário norte-americano Henry
Ford.
O fordismo teve seu ápice no período posterior à Segunda
Guerra Mundial, nas décadas de 1950 e 1960, que ficou conhecido
na história do capitalismo como Os Anos Dourados.
A crise sofrida pelos Estados Unidos na década de 1970 foi
considerada uma crise do próprio modelo, que apresentava queda
da produtividade e das margens de lucros. A partir da década de
1980, esboçou-se nos países industrializados um novo padrão de
desenvolvimento denominado pós-fordismo ou modelo flexível.
Para compreender as tendências do novo modelo flexível, baseado
na tecnologia da informação, que vem ameaçando os empregos, é
necessário levantar, ainda que de forma simplificada, algumas
características do fordismo e algumas razões que levaram ao seu
esgotamento:
* Período - Nos países de industrialização avançada, o fordismo surgiu a partir da crise de 1929, atingindo o auge de dominação nos anos 50 e 60.
* Avanços tecnológicos - O fordismo contou inicialmente com os avanços tecnológicos alcançados no final do século XIX, como a eletricidade e o motor à explosão. Mais tarde incorporou os avanços da alta tecnologia desenvolvida durante a Segunda Guerra Mundial e que posteriormente passou para o uso da sociedade civil, a exemplo dos materiais sintéticos e do motor a jato. E, finalmente, no pós-guerra, começou a usufruir dos avanços científicos alcançados nas áreas da eletrônica e da tecnologia da informação.
* Organização da produção - Nas grandes indústrias, longas esteiras rolantes levavam o produto semi- acabado até os operários, formando uma cadeia de montagem. A produção dos diversos componentes era feita em série. O resultado foi uma produção em massa que utilizava maquinaria cara; por isso, o tempo ocioso deveria ser evitado a todo custo. Acumularam-se grandes estoques extras de insumos e mantinha-se alto número de trabalhadores para que o fluxo de produção não fosse desacelerado. Os milhares de produtos padronizados eram feitos para mercados de massa. Os setores industriais mais destacados eram os de bens de consumo duráveis (automóveis e eletroeletrônicos) e os de bens de produção (destacadamente a petroquímica). Entre as décadas de 1940 e 1960 surgiu uma interminável seqüência de novos produtos, a exemplo de rádios portáteis transistorizados, relógios digitais, calculadoras de bolso, equipamentos de foto e vídeo.
* Organização do trabalho - O trabalho passou a se organizar com base num método racional, conhecido como taylorismo, que apresentava as seguintes características:
- separava as funções de concepção (administração, pesquisa e desenvolvimento, desenho etc.) das funções de execução;
- subdividia ao máximo as atividades dos operários, que podiam ser realizadas por trabalhadores com baixos níveis de qualificação, mas especializados em tarefas simples, de gestos repetitivos;
- retinha as decisões nas mãos da gerência. Esse "método americano" de trabalho seguia linhas hierárquicas rígidas, com uma estrutura de comando partindo da alta direção e descendo até a fábrica. Os operários perderam o controle do processo produtivo como um todo, e passaram a ser controlados rigidamente por técnicos e administradores.
* Organização dos trabalhadores - Houve crescimento e fortalecimento dos sindicatos. Os contratos de trabalho começaram a ser assinados coletivamente. Os salários eram ascendentes. E foram realizadas importantes conquistas de cunho social, tais como garantias de emprego, salário-desemprego e aposentadoria.
* Mercado- Os mercados de massa ficavam garantidos por causa do aumento da capacidade de compra dos próprios trabalhadores. Embora ocorresse uma expansão dos mercados internacionais, eram os mercados internos que garantiam o consumo da maior parte da produção. Surgia a sociedade de consumo. Geladeiras, lavadoras de roupa automáticas, telefone e até automóveis passaram a ser produtos de uso comum. Serviços antes acessíveis a minorias, como no caso do setor de turismo, transformaram-se em serviços de massa.
* Papel do Estado - Ocorreu a ampliação e a diversificação da intervenção social e econômica do Estado, inspirada nos princípios da teoria keynesiana e do Estado do bem-estar social. O Estado nacional de caráter keyneisiano passou a interferir mais diretamente na economia, por meio, por exemplo, dos gastos públicos, dos planos de desenvolvimento regional, da criação de um número significativo de empregos no setor público e do atendimento às garantias reivindicadas pelos trabalhadores, a exemplo da garantia de emprego. E o Estado do bem-estar social desenvolveu políticas destinadas a reduzir as desigualdades sociais, como as de transportes urbanos, habitação, saneamento, urbanização, educação e saúde.
* Organização do território - A organização da produção e do trabalho reorganizou o espaço geográfico. O processo de urbanização acelerou-se. As unidades produtivas atraíam umas às outras. Cresceram ainda mais as regiões industriais. As cidades se transformaram em grandes manchas urbanas. Surgiram novos bairros residenciais e distritos industriais com o apoio e incentivo estatais. Cresceram a construção civil e a massa construída de casas e prédios, em grande parte incentivadas por programas governamentais de hipotecas e empréstimos.
As metrópoles, com seus centros de negócios e
de decisões constituídos pelas sedes sociais das grandes
empresas, incorporaram os municípios vizinhos. Grandes regiões
urbanizadas - as megalópoles - se formaram entre duas ou mais
metrópoles devido à polarização que tais centros exerciam
sobre as pequenas e médias cidades que se encontravam ao seu
redor. Intensos fluxos de pessoas e mercadorias integraram o
conjunto formado por essas cidades.
Em todas as cidades intensificaram-se o comércio, os transportes,
as comunicações e os serviços em geral. As redes urbanas
tornaram-se mais densas. Diversificaram-se as atividades
culturais e de lazer. Cresceram as universidades e centros de
pesquisa e tecnologia. Mais capitais e trabalhadores foram atraídos
pelas cidades. A geografia do fordismo foi a das grandes
concentrações urbano-industriais.
O modelo fordista, que floresceu no pós-guerra, dependia da
subida constante dos salários para manter o mercado ativo, ou
seja, manter os níveis de produção e de consumo crescentes.
Porém, os salários não podiam crescer a ponto de ameaçar os
lucros empresariais; mantiveram-se os níveis salariais e os
lucros aumentando os preços dos produtos, o que gerou uma crise
inflacionária.
Nos Estados Unidos, os gastos públicos se agigantaram, tanto
interna como externamente - a guerra do Vietnã foi um exemplo. A
moeda americana ficou debilitada. Esse país, que durante todo o
período de domínio do fordismo assegurava a estabilidade da
economia mundial com base em sua moeda - o dólar -, viu esse
sistema monetário declinar. A competitividade da Europa e do Japão
superavam a dos Estados Unidos. Assistia-se a uma verdadeira
guerra comercial, que nunca deixou de crescer.
A partir da década de 1970, a saída foi investir num novo
modelo que rompesse com aquilo que era considerado a rigidez do
modelo fordista. A ordem era flexibilizar, ou seja, golpear a
rigidez nos processos de produção, nas formas de ocupação da
força de trabalho, nas garantias trabalhistas e nos mercados de
massa, então saturados.
As empresas multinacionais, para restabelecer sua rentabilidade,
expandiram espacialmente sua produção por continentes inteiros.
Surgiram novos países industrializados. Os mercados externos
cresceram mais que os mercados internos. O capitalismo
internacional reestruturou-se.
Os países de economia avançada precisaram criar internamente
condições de competitividade. A saturação dos mercados acabou
gerando uma produção diversificada para atender a consumidores
diferenciados. Os contratos de trabalho passaram a ser mais flexíveis.
Diminuiu o número de trabalhadores permanentes e cresceu o número
de trabalhadores temporários. Flexibilizaram-se os salários -
cresceram as desigualdades salariais, segundo a qualificação
dos empregados e as especificidades da empresa. Em muitas
empresas, juntou-se o que o taylorismo separou: o trabalhador
pensa e executa. Os sindicatos viram reduzidos seu poder de
representação e de reivindicação. Ampliou-se o desemprego.
Os compromissos do Estado do bem-estar social foram sendo
rompidos pouco a pouco. Eliminaram-se, gradativamente, as
regulamentações do Estado.
As políticas keynesianas - que se revelaram inflacionárias, à
medida que as despesas públicas aumentavam e a capacidade fiscal
estagnava - forçaram o enxugamento do Estado.
A transformação do modelo produtivo começou a se apoiar nas
tecnologias que já vinham surgindo nas décadas do pós-guerra (automação
e robotização) e nos avanços das novas tecnologias da informação.
O método de produção americano foi substituído pelo método
japonês de produção enxuta, que combina máquinas cada vez
mais sofisticadas com uma nova engenharia gerencial e
administrativa de produção - a reengenharia, que elimina a
organização hierarquizada. Agora, engenheiros de projetos,
programadores de computadores e operários interagem face a face,
compartilhando idéias e tomando decisões conjuntas.
O novo método, rotulado por muitos como toyotismo, numa referência
à empresa japonesa Toyota, utiliza menos esforço humano, menos
espaço físico, menos investimentos em ferramentas e menos tempo
de engenharia para desenvolver um novo produto. A empresa que
possui um inventário computadorizado, juntamente com melhores
comunicações e transportes mais rápidos, não precisa mais
manter enormes estoques. É o just in time.
O novo método permite variar a produção de uma hora para outra,
atendendo às constantes exigências de mudança do mercado
consumidor e das mudanças aceleradas nas formas e técnicas de
produção e de trabalho. A ordem é manter estoques mínimos,
produzindo apenas quando os clientes efetivam uma encomenda.
As grandes empresas começaram a repassar para as pequenas e médias
empresas subcontratadas um certo número de atividades, tais como
concepção de produtos, pesquisa e desenvolvimento, produção
de componentes, segurança, alimentação e limpeza. Isso passou
a ser conhecido como terceirização. Com ela, as grandes
empresas reduziram suas pesadas e onerosas rotinas burocráticas
e suas despesas com encargos sociais, concentrando-se naquilo que
é estratégico para seu funcionamento.
A produção flexível vem transformando espaços e criando novas
geografias, à medida que ocorrem redistribuições dos
investimentos de capital produtivo e especulativo e, conseqüentemente,
redistribuição espacial do trabalho. Numerosas empresas se
transferiram das tradicionais concentrações urbanas e regiões
industriais congestionadas, poluídas e sindicalizadas, para
novas áreas nas quais a organização e o poder de luta dos
trabalhadores é pouco significativa. Surgiram novos complexos de
produção - os complexos científicos-produtivos -, ligados a
universidades e centros de pesquisa onde as inovações são
constantes.
Um caso exemplar desses complexos é o do Vale do Silício (Silicon
Valley), na Califórnia, cujo modelo se difundiu por vários países.
Nesse complexo, a Universidade de Stanford, juntamente com
empresas do ramo da microeletrônica, criou um parque tecnológico
cuja fama cresceu com a produção de semicondutores e o uso do
silício como matéria-prima para sua fabricação. O Vale do Silício
faz parte de uma área maior em torno da baía de São Francisco
onde se estabeleceram numerosas indústrias de alta tecnologia.
Esses tecnopólos também são encontrados no interior das
tradicionais regiões industriais que vêm se modernizando, a
exemplo da região industrial de Frankfurt, na Alemanha, ou ainda
daquelas que procuram sair de uma situação de estagnação,
como no caso da região de Turim, na Itália, ou de Lyon, na França.
O sistema just in time exige também uma reorganização do
território. As firmas subcontratadas pelas grandes empresas se
aglomeram em torno da planta terminal de produção, criando um
novo tipo de aglomeração produtiva.
Esse é o caso da fábrica da Volkswagen, instalada em Resende,
no Estado do Rio de Janeiro, que vem atraindo outras empresas que
produzirão, no próprio terreno da fábrica da Volkswagen,
componentes utilizados na montagem de ônibus e caminhões.
Sem nenhuma dúvida, vivemos hoje mudanças profundas que se
refletem no mundo do trabalho. Para os mais otimistas, a questão
do desemprego tecnológico será resolvida pela própria
tecnologia avançada que estimulará o surgimento de novos
setores produtivos e de atividades humanas a ela ligados,
exigindo, assim, novos trabalhadores. Para outros, o sonho dos
empresários de fábricas sem operários está prestes a ser
realizado.
Também nos setores agrícolas e de serviços, as máquinas
substituem o trabalho humano. Corporações multinacionais fazem
notar que estão cada vez mais competitivas, e ao mesmo tempo
anunciam demissões em massa. A questão que se coloca neste
final de século é a seguinte: para onde vão os trabalhadores?
A resposta dependerá da posição assumida pelas sociedades como
um todo.